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Entrevista Saúde News
E depois da COVID-19?
Dr. Lucio Araripe de Abreu e Lima, Médico Psiquiatra que atua em Cascavel - Paraná
Essa é uma situação complexa que requer muita atenção. Ainda não podemos falar com segurança que estamos na fase “pós-covid-19”. Mas, depois de dois anos convivendo com essa epidemia sabemos que em cada três pessoas acometidas pelo COVID-19, uma apresenta, num período de seis meses antes ou depois da alta, sintomas físicos e mentais significativos. Problemas cardiovasculares, pulmonares, renais, dermatológicos, queda de cabelo e gastrointestinais, dores no corpo são os mais referidos.
Na área de psiquiatria, as questões relacionadas à mente são mais difíceis de lidar. O psiquiatra agora tem que estar mais atento às sutilezas dos sintomas que o paciente apresenta. Muito importante indagar se ele teve COVID-19 e como foi a evolução clínica da doença. Depois de mais de dois anos de pandemia, já temos experiência em abordar essa questão. Ao primeiro contato com o paciente indagamos se teve COVID-19 e como se desenvolveu a doença. Há uma diversidade muito grande de sintomas na área de psiquiatria tais como depressão, perturbações na memória, a pessoa esquece palavras, falta de concentração, raciocínio lento, distúrbios do sono, desânimo, ansiedade elevada, medos, choro fácil, sentimentos de grande sofrimento, principalmente quando o paciente tem a ideia de que pode ter sido responsável pela contaminação de algum familiar que veio a falecer.
Muitas vezes, esses quadros de ansiedade e depressão já existiam antes do COVID-19, porém agora, estão significativamente agravados e requerem uma observação mais específica. Não apenas o psiquiatra será responsável pelo tratamento. A abordagem deverá ser multiprofissional, envolvendo fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos.
A síndrome pós-covid é semelhante a um quadro de estresse pós-traumático. Gera ansiedade, que libera adrenalina, que aumenta os batimentos cardíacos e, consequentemente, a respiração, perturbando o sono e resultando numa sensação de cansaço geral que praticamente imobiliza a pessoa.
Não podemos separar corpo e mente. O pensamento positivo tem papel importante na recuperação das doenças. Mas, quando a mente está em sofrimento já percebemos que a tarefa de tratar essa pessoa requer mais atenção. É aí que atuam o psiquiatra e o psicólogo.
Uma pessoa acometida de COVID-19, mesmo nos casos de uma evolução leve, passa por um grande estresse devido às condições psicológicas que a levam em pensar na morte. Estão aí os veículos de comunicação vinte quatro horas por dia noticiando o número de mortes, cenas de sepultamentos repetitivas, a chegada de uma nova mutação do vírus provocando uma nova onda, a ameaça de medidas restritivas provoca em muitas pessoas um grande medo, que é superado à custa de muita tensão emocional. Essa situação aparece frequentemente e pode disfarçar-se como um caso de ansiedade.
Muito importante salientar que mesmo as alterações neurológicas, não aparecem nas tomografias ou ressonâncias magnéticas. Vale, no diagnóstico e na condução do tratamento, a sensibilidade de cada profissional para o caso. O coronavírus é um vírus que guarda muitos mistérios, especulação e incertezas. Apesar disso, a medicina em menos de um ano foi capaz de produzir vacinas que, inegavelmente, tem proporcionado uma proteção com uma evolução menos letal a quem é acometido por essa virose. Entretanto, ainda não temos uma medicação eficaz para tratar a COVID-19. Vacinar-se é fundamental.
Há mais de um ano, os médicos detectaram sintomas físicos e mentais que aparecem nos seis meses, antes ou depois, da alta de pacientes que foram infectados. Em muitos lugares estão sendo criados centros para tratamento das sequelas da COVID-19. Esses centros, através de trabalhos médicos e de outros profissionais, estão difundindo conhecimentos e tratamentos que ajudam na recuperação dos pacientes. Acreditamos que nossa cidade deverá, em breve, ter um desses centros vinculado à saúde pública.
Dr. Lucio Araripe de Abreu e Lima
CRM-PR 13246
Psiquiatria - RQE 13018
"Acredito que o psiquiatra deve se preocupar mais com o paciente e não
tanto com a doença. Ouvi-los é fundamental, na maioria dos casos, a
doença não está na pessoa e, sim, nas circunstâncias de sua vida."
